Minério e Prosa: Senzala, nunca mais ! Uma análise de Nádio Batista.

Se apropriar da palavra senzala para falar da escravidão do negro no Brasil é como mencionar a palavra abelha para lembrar-se do tão saboroso mel. Ou seja, ao pronunciar a palavra senzala, virtualmente e estruturalmente vislumbramos o negro. Ele que durante quase 400 anos foi escravizado de forma velada em nosso país. Fato este, que deixou terríveis marcas na sociedade. Dentre as muitas heranças da escravidão sentida até os dias atuais, destaco aquilo que Ricardo Alexandre Ferreira, doutor em História e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp – Campus Franca), chamou de naturalização da desigualdade . Já no século XIX após a abolição da escravatura e que a sociedade passou a conviver com os novos ideais de liberdade e igualdade apregoados pelos quatro cantos do país, ao mesmo tempo, manteve-se em seus quadros legais a escravidão dos negros. Era exatamente assim que nascia um país “moderno” que não “aceitava” a escravidão. Mas que afirmava não poder se desvencilhar imediatamente do cativeiro. Era assim, que nascia um país “livre e igual”, composto por meios cidadãos (os ex-escravos ou libertos) e cidadãos (os senhores poderosos). “Esse legado, não menos importante do que os vinculados à arte, à culinária, à construção de edificações, enfim, ao desenvolvimento de uma cultura mestiça, acabou por nos marcar efetivamente como um povo que tem a desigualdade enraizada em sua cultura”, pontua Ferreira.
A naturalização da desigualdade social é tratada no livro A Ralé Brasileira, de Jessé Souza, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em que o autor expõe o drama histórico da sociedade brasileira. Ou seja: a reprodução de uma sociedade que considera normal e aceitável ter “gente” de um lado e “subgente” de outro; uma sociedade discriminatória que classifica seres humanos em diferentes categorias, de acordo com sua posição econômica. Neste aspecto, lembro da vez em que recebi em minha casa Henrique Bruno, Diretor Presidente da FUNCEL de Canaã dos Carajás, onde em meio a nossa conversa, ele destaca sua admiração aos pensamentos de Eduardo Marinho. Um artista plástico, escritor, ativista social e filósofo brasileiro – o pensador das ruas. É Eduardo Marinho que em uma das suas falas, confirma que os pobres são à base da sociedade. Eles plantam e colhem tudo o que a sociedade come, Eles costuram as roupas para que a sociedade possa vestir. Eles fazem as calçadas, constroem os hospitais, recolhe o acidentado na rua e os recebem no hospital, enfim… Esses pobres não têm acesso à boa educação, a boa moradia etc. Exatamente como no sistema escravagista onde o escravo negro não tinha acesso à educação para não ficar esclarecido e se revoltar contra o sistema.
É impossível dissociar a compreensão da condição do homem moderno dos efeitos nefastos do sistema de escravidão. E não apenas do ponto de vista socioeconômico conforme falado acima. Mas, também, do ponto vista cultural. Há um samba da estação Primeira de mangueira que minha mãe (que era negra) cantava, que dizia assim: “livre dos acoites da senzala, mas preços na miséria da favela”.
A escravidão e o racismo foram escondidos, mas é endêmico nas camadas pobres da sociedade das quais 78% são negros.
Por ultimo, e de forma breve, gostaria de trazer para nossa reflexão a escravidão e racismo sob uma ótica filosófica. Neste aspecto temos que lançar nosso olhar a ética e a política. Aqui recomendo a leitura de Giorgio Agamben, filósofo italiano, autor de obras que percorrem temas que vão da estética à política. Quando li Agamben fui despertado para o fato de que a escravidão negra no Brasil pode ser olhada sob a ótica da vida e da política. Em outras palavras, quando o poder político toma como objeto próprio de domínio a vida humana. É nesse momento que a escravidão volta a tona. Sendo que desta vez, não através de acoites, mas através da manipulação da mente, do pensamento e a exploração do que se poderia considerar vida.
E para encerrar esta reflexão, confirmo a fala do pensador das ruas, Eduardo Marinho, que a sociedade não tem coração, que na busca de poder ela comete crimes. Bem como, aproveito para lembrar meu leitor, que neste ano, mais uma vez, teremos a oportunidade de quebrar as correntes da escravidão através do nosso voto.

Nádio Batista do Nascimento é filósofo, teólogo e psicanalista. É Sgt do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Pará e mora em Canaã dos Carajás.